Xamanismo Siberiano
Como todos
devem saber a palavra xamã deriva da língua evenca, que é própria de
um pequeno grupo de caçadores e pastores de renas de língua tungu da
Sibéria. Embora alguns eruditos argumentem que a palavra deriva do
sânscrito, o termo xamanismo usa-se, em sentido restrito, apenas
para designar as tradições espirituais da Sibéria e Mongólia.
Inicialmente, foi apenas utilizada para designar um líder espiritual
desta região, mas no início do século XX, a designação aplicou-se a
um leque de curandeiros e curandeiras.
Estas tradições espirituais que tradicionalmente não tem nome,
partilham uma cosmologia de níveis, ligados por uma árvore, um pilar
ou montanha. Abrangem ainda a crença da separação do espírito do
corpo e do vôo xamânico até o céu e ao mundo sob a terra. De um modo
típico, a iniciação do xamã realiza-se através da sua tortura e
desmembramento por espíritos, que o voltam a reunir. Em grande parte
da região, há uma associação entre o xamã e o ferreiro. Todavia
ocorrem variações locais muito importantes. Na costa do Pacífico
defronte do Alasca, os Tchuktchins e os esquimós siberianos vivem
tradicionalmente da caça da baleia e da morsa. São muito
diferenciados do povo da floresta do interior que vivem da caça da
rena e do alce, por vezes criando-os em grandes rebanhos, e também
da pesca, nos numerosos rios e lagos. Mais para o sul, à medida que
a floresta vai sendo substituída pela estepe, as sociedades de
caçadores voltaram-se para o pastoreio, dispondo de grandes rebanhos
de carneiros, de cabras e até de camelos.
Há vários tipos de xamãs, inclusive no seio de uma mesma
sociedade, e até do mesmo acampamento. Uns eram curandeiros, outros
descobriam a caça, outros ainda afastavam os maus espíritos ou
entravam em contatos com os mortos. A idéia do xamã puro ou ideal,
tal como apresenta Mircea Eliade, torna-se cada vez mais difícil de
sustentar em qualquer pesquisa nesta região social e ecologicamente
diversificada. De um modo geral, há duas grandes tendências que
constituem o padrão espiritual da região. A que sem dúvida mais tem
atraído a atenção apresenta um tipo de xamã que participa de forças
imanentes do mundo, que sejam humanas, animais ou elementos como a
àgua e o ar. Neste tipo de xamanismo, o xamã se transforma em
qualquer coisa, como por exemplo um animal. Estes xamãs são capazes
de viajar até o céu, geralmente com a finalidade de de alterar uma
situação desfavorável, como uma doença. Outro tipo de xamanismo é o
de clã, que se preocupa com a reprodução e a família. Este tipo de
xamanismo associa-se com o culto do céu e das montanhas que até ele
conduzem. Os locais de culto, constituídos por um amontoado de
pedras com um pau vertical no cimo, mantém-se populares e são
designados por "oboo" na Mongólia e regiões vizinhas. Os xamãs do
segundo tipo raramente entram em transe e, em vez disso,
concentram-se na oração e no sacrifício. Estes xamãs não se
transformam em animais nem viajam até céu.
Entre os Buriatas e os Icautos, as diferenças correspondem a
uma classificação nativa dos xamãs, em brancos e negros. Falando de
um modo geral, os xamãs negros entram em transe e contactam com os
espíritos dos mundos subterrâneos e da doença, enquanto os xamãs
brancos oravam antes de entrarem em transe, invocando bençãos para
os homens e para os animais domésticos, concedidas pelos deuses e
pelos espíritos auspiciosos do mundo superior. Estes xamãs brancos
correspondem ao que noutras partes do mundo se designa por
sacerdotes.
Como já expliquei anteriormente, o xamã siberiano consegue
abandonar seu corpo e viajar até outras regiões do cosmo, e
particularmente até um mundo superior e também um interior. Esta
capacidade é tradicional em outras partes do mundo também e
permite-nos designar sociedades e culturas xamânicas.
Os povos siberianos acreditam tradicionalmente que o mundo se
divide em três níveis. Os seres humanos vivem no nível médio, mas o
mundo superior, no céu, é atingível por intermédio de um pequeno
orifício. Este mundo tem uma superfície sólida (sendo povoada até
por animais) e divide-se em vários níveis. Os caçadores do extremo
norte acreditavam que havia apenas três, mas mais ao sul, em
resultado da influência dos impérios das cortes próximas, muitos
mais se consideraram, pensando-se que o governante supremo, Bai
Ulgen, vivesse no nono nível. Do mesmo modo, o mundo inferior
encontrava-se dividido em diversos níveis, e era freqüentemente
considerado o reino dos mortos. Estes outros mundos eram
parcialmente como os nossos, com montanhas, rios e criaturas. Os
Nganasãs estavam convictos de que o mundo inferior era muito frio, e
vestiam os mortos com peles adequadas para o inverno. Os Iacutos,
pelo contrário, pensavam que o céu é que era frio, e, por vezes, os
xamãs regressavam de uma viagem até o céu totalmente cobertos por
cristais de gelo.
Os Iacutos acreditavam que um xamã só curava as doenças cujos
espíritos tinham provado a carne do xamã durante sua iniciação. Em
muitas regiões da Sibéria, as pessoas podem sofre de uma "doença
xamânica" perfeitamente distinta, em que parecem ficar fora de si,
lançando-se nuas pelos campos sem qualquer consideração pela própria
segurança, ou passando semanas numa árvore, ou jazendo imóveis no
chão. Durante este período, recusam-se a encetar a difícil vida e
são perseguidos por espíritos que as obrigam a ceder. Quase sempre o
iniciado cede, mas a luta pode ser dura e prolongar-se por alguns
anos. Os espíritos ameaçam que, se o candidato mantiver a recusa,
ele ou ela continuará a ser torturado por eles próprios, e acabará
por ser morto, eventualmente. Por conseguinte, o "dom" xamânico e o
controle dos espíritos são como uma faca de dois gumes: em vez de
serem ativamente procurados, são impostos contra a vontade do xamã,
e além de conceder o poder também provocam angústia para toda vida.
Muitas outras culturas encaram da mesma maneira o problema. O
primeiro contato com os espíritos (em especial na Sibéria e
Mongólia) toma a forma de um ataque violento, que conduz ao que
parece ser a completa destruição da personalidade do futuro xamã. A
isto se segue a reconstrução do xamã, cujo novos poderes não se
limitam a um acrescento externo ou ferramenta. Na realidade, são uma
espécie de visão íntima das coisas, uma perspectiva da natureza do
mundo, e em particular, das formas de sofrimento humanas que ele ou
ela acabou de sofre de modo tão intenso. A interiorização de todas
estas experiências levará ao aparecimento de uma nova personalidade,
e é esta que se exprime através da destruição da anterior natureza
do xamã.
A experiência psíquica do candidato fica expressa pelo
desmantelamento do corpo. Ele ou ela poderão ver-se como um
esqueleto, um tema largamente encontrado na Ásia e nas Américas. Na
Sibéria, cada osso e cada músculo é tomado à parte, contado e
colocado a ser reunido com os restantes, enquanto o sangue do
candidato reassuma pelas articulações do corpo inerte, na sua tenda,
rodeado por parentes ansiosos. Há outros processos, segundo os quais
o xamã pode tornar-se uma pessoa diferente, e o terror da
experiência pode surgir entremeado de êxtase e prazer.
Na iniciação do xamã, o tema morte completa-se com
renascimento, e o movimento do xamã no espaço cósmico é por vezes
comparado ao regresso ao útero. Para além de ser amamentado ao peito
de uma mãe-espírito, o xamã siberiano é ainda ocasionalmente
embalado num berço de ferro por espíritos, sobre um dos ramos da
árvore do mundo. Entre os esquimós do Alasca, o túnel de passagem
para o iglu significa claramente a passagem vaginal para o útero, e
a palavra "ani" tanto significa "sair do iglu" como "nascer". Só
quando um xamã aguardava entre vidas o seu renascimento é que sentiu
que o interior de sua mãe era como um pequeno iglu, mas que a
passagem de saída era tão pequena que ele teria dificuldade de sair.
Somente quando ouviu uma voz a incitá-lo a sair é que acabou por
forçar a saída através de uma passagem estreita.
São esta imagens que permitem a alguns psicanalista e
psicólogos interpretar a iniciação e o transe xamânico como uma
regressão infantil. É claro, contudo, que nem todo retorno ao útero
são regressivos, uma vez que o xamã renasce como um adulto integrado
e extremamente poderoso. Neste aspecto, a iniciação xamânica
assemelha-se à iniciação vulgarmente efetuada em muitas sociedades
por ocasião dos ritos da puberdade, da qual se diz que o adolescente
regressou ao útero para renascer, desta vez como completamente
adulto ou, por outras palavras, como uma pessoa mais completa do que
anteriormente.
O povo Inuíte não vive só na Sibéria, algumas de suas tribos
vivem no Alasca e outra no Canadá. Este povo acreditam que os
mamíferos e pássaros têm uma lama coletiva. Usam uma única palavra
para identificar todos os membros de uma espécie. Por vezes, há duas
pessoas com o mesmo nome, e este fato lhe confere uma determinada
relação entre suas almas, e simpatia mútua. O nome pode ligar as
pessoas, e até toda uma espécie. Além disso, uma pessoa associa-se
deste modo a pessoas mortas que tinham o mesmo nome, formando uma
rede de almas parcialmente partilhadas que funciona como uma ponte
entre os vivos, os mortos e o reino animal. Eles acreditam que
proferindo um nome, criavam uma realidade, mesmo que apenas de
caráter mental. Os objetos e seus nomes eram igualmente reais. O
nome de uma pessoa faz parte de sua alma, no modo simboliza a sua
existência social e sua relação com o meio ambiente. Representa
ainda a essência da pessoa, passada a outra, após sua morte.
Entre os Inuítes aquele que pretende tornar-se xamã deverá
explicar que "eu venho até ti porque pretendo ver". A idéia é que a
sabedoria envolve uma espécie de segunda visão, ou visão interior, e
associa-se muitas vezes a perda da visão normal pela pessoa. O poder
xamânico exprime-se freqüentemente em termos de visão especial, como
quando os olhos dos xamãs siberianos são arrancados (durante sua
iniciação) por espíritos ferreiros e substituídos por olhos
especialmente adequados à visão de outras realidades.
Nas pequenas tribos de caçadores de renas e de pastores, como
os Evencos e os Iucagires no norte e nordeste da Sibéria, o xamã era
um chefe de clã e negociava com os espíritos sobre as almas dos
animais que iriam ser caçados. Para o lado do noroeste, entre os
Nganasás, o xamã estava menos ligado ao clã, visto este se encontrar
disperso. Na costa do Pacífico, entre os Tchuktchis e os Coriaques,
o clã era fraco e as famílias podiam executar alguns dos seus
próprios ritos xamânicos. Onde houvesse xamã profissionais, estes
estavam relativamente pouco ligados aos grupos sociais, e executavam
truques particularmente espetaculares, a fim de conservar os seus
clientes.
Era muito diferente o contexto do xamanismo no sul da Sibéria
e na Mongólia. Aqui, as grandes manadas davam origem a comunidades
maiores e clãs fortes.
Além disso, a influência do Budismo da Idade Média para cá,
surgiu uma cosmologia mais elaborada, e o xamanismo estava mais
fortemente institucionalizado. Além de curandeiros, os xamãs serviam
muitas vezes de sacerdote que realizavam sacrifícios. Durante os
rituais importantes, o papel do xamã era o de escoltar até o outro
mundo a alma do cavalo ou de outro animal sacrificado.
No século XIX e no princípio do século XX, por ocasião dos
primeiros estudos antropológicos, estes povos xamânicos tinham se
tornado a fronteira entre os modernos impérios russo e chinês. Na
Mongólia e na Sibéria do Sul, o xamanismo competia com a forma
tibetana do budismo, o Lamaísmo. Mas a Mongólia se caracterizava por
possuir fontes escritas não européias relativas ao xamanismo. The
Secret History of the Mongols, e os trabalhos do viajante Rashid
Al-Din demonstram que, enquanto o xamanismo mongólico há mil anos
anos era semelhante em muitos aspectos ao que hoje se pratica,
apesar pela constantes modificações políticas e sociais ocorridas. A
Mongólia foi pacificada duas vezes por missionários budistas,
enquanto a corte chinesa partilhava o culto do céu com as tribos do
interior. O céu é masculino, e a fonte da boa fortuna e do sucesso
militar. É freqüentemente referido como pai, e o chefe mongol Gengis
Kan pretendia ser filho do céu. A associação do céu com a linha
masculina conduziu ainda a importância do poderio militar. Para um
xamã, a pretensão de ser capaz de entrar no céu era uma aventura
numa área politicamente sensível, e por isso, este tipo de xamanismo
tendia a encontrar-se em locais mais afastados, como nas tribos de
caçadores, de preferência em regiões mais centrais dos impérios. No
século passado, as tradições foram ainda alvo de severa repressão
por parte do comunismo, principalmente com a criação da União
Soviética, mas recentemente voltaram a surgir em vários pontos da
Sibéria.
O xamanismo nesta região está intimamente relacionada com as
tradições espirituais e crenças que se encontram em duas partes
muito diferentes do mundo. De início, a América do Norte foi muito
provavelmente colonizada a partir da Sibéria, por caçadores que
atravessaram o estreito de Bering quando no existia uma língua de
terra entre os dois continentes. O xamanismo dos esquimós do norte
americano é quase idêntico ao dos Tchuktchis, do lado siberiano do
mar. As tradições xamânicas da Mongólia são próximas da filosofia
pré-budista "bon-po" e das várias formas de religião que se
encontram no Nepal e no sudoeste asiático e Ásia meridional.
FONTE.: WWW.XAMANISMO.COM