Medicina Nativa e
seu verdadeiro valor
A medicina nativa é uma das mais
ricas e fascinantes heranças culturais da América Latina.
Atualmente, principalmente no meio rural, milhares de pessoas
procuram os curandeiros para aliviar seus sofrimentos, angustias e
enfermidades.
Transmitido de geração em geração, através da tradição oral que se
manteve viva, essa bagagem de conhecimentos de milhares de anos. É
importante que o Estado e instituições privadas, resgatem e
mantenham o legado dessa primogênita alternativa de cura porque,
entre outras benefícios, guarda um prodigioso conhecimento
terapêutico sobre as plantas medicinais, que podem aliviar e curar a
milhares de pessoas.
Além de suas técnicas psicológicas que trabalha a fundo as emoções
dos enfermos curando-os majestosamente, eles têm um conhecimento
íntimo da alma humana. A medicina nativa é um sistema médico, ou
seja, uma complexa doutrina sobre a saúde, a enfermidade e as
diversas formas de curar. Por sua origem arcaica está profundamente
imbuída de magia, religião e mistério.
Os poderes do universo, o sagrado e o drama do ser humano frente ao
bem, ao mal, a vida e a morte estão definidos em sua estrutura
ideológica. A explicação e justificação da medicina nativa, então,
se sustenta em sua natureza religiosa. A origem das enfermidades,
segundo esse sistema, se encontra na ação de forças sobrenaturais.
Na selva amazônica e em outras regiões, para que o Curandeiro tenha
a "visão" da origem do mal, sua explicação e possível cura, em
termos gerais, deve recorrer a ingestão de substâncias alucinógenas,
especialmente plantas psicotrópicas. Outros utilizam o fumo de
cigarros, porém o efeito é o mesmo: entrar em estado alterado de
consciência (Estado Xamânico de Consciência), ou seja, em realidades
espirituais onde grandes forças míticas jogam com o destino dos
homens e possuem valorosos conhecimentos e poderes sobre as
enfermidades, desgraças, a cura, a fortuna, a vida e a morte.
Geralmente, os instrumentos físicos eficazes que servem para curar
são as plantas tradicionais, os quais crêem os mestres Curandeiros
têm "alma" ou "virtudes divinas", poderes que permitem erradicar as
doenças e aleijar com "sua eficácia misteriosa" o sofrimento e a
morte. A ciência, por sua parte, revela que esses vegetais têm
diversas propriedades farmacológicas de comprovada eficácia para
aliviar ou erradicar determinadas enfermidades fisiológicas.
É importante destacar que os mestres Curandeiros insistem em dizer
que os remédios vegetais só atuam dentro de seus respectivos
contextos rituais, fora desse esquema, as plantas têm pouca
eficácia.
As origens desse sistema de cura remonta a milhares de anos atrás,
no período Paleolítico, quando a expressão mais arcaica da
religiosidade do ser humano se manifestou através do xamanismo.
A medicina nativa tem um enorme e fundamental ingrediente emocional,
que contribui para a cura dos males, convertendo a mente e as
energias internas do enfermo em um poderoso aliado para combater a
enfermidade. É notável a maestria dos verdadeiros Curandeiros em sua
capacidade de relacionar-se com seus pacientes e investigar a fundo
seus conflitos emocionais para logo, canalizar suas motivações e
sentimentos em armas para a cura.
Os Curandeiros têm a capacidade de conhecer se o enfermo perdeu sua
alma. Então como se fosse um estranho guerreiro em missão de resgate
o Curandeiro se prepara com suas maracás, espadas, santos, punhais,
perfumes e ervas, para "lutar" contra os "espíritos malignos"
durante seus ritos, com o fim de intentar "recuperar o espírito do
paciente e restituir sua saúde".
Diante de seu atemorizado, porém esperançoso paciente, a
parafernália e rituais do Curandeiro que invoca os poderes de deuses
e espíritos, contribui para que o enfermo adquira a confiança de que
"poderosas forças espirituais se converteram em seus aliados para
acabar com sua enfermidade ou sua desgraça. O Curandeiro, suado e
atormentado durante a "luta", crê de todo coração que é um canal por
onde é passado os poderes de cura dos espíritos ancestrais, da
terra, da água e das montanhas. A confiança do paciente é decisiva
para a cura, especialmente aquelas enfermidades de caráter
psicossomático.
Nesse sentido, podemos verificar que não existe uma "abordagem
intimista e eficaz" na medicina ocidental moderna que é fria e
impessoal.
Na maioria dos casos, na medicina nativa, os Curandeiros trabalham
as emoções mais profundas do ser humano, e se bem canalizadas na
direção correta, “têm efeitos quase mágicos” na saúde. Muitos
profissionais da saúde, na atualidade, se esqueceram que toda
medicina se sustenta em uma trama psicossomática relacionada com a
mente e o corpo, o qual os Curandeiros sabem muito bem, e procuram
participação decisiva da mente no processo de cura. Por essa razão,
os Curandeiros são respeitados pela sua comunidade não só como
excelentes herboristas, mas também como notáveis psicoterapeutas.
O Brasil é um dos três países com maior diversidade biológica no
planeta: possui 93 zonas de vida de um total de 104 existentes em
todo o globo. Dezenas de milhares de espécies animais e vegetais,
uma extraordinária flora e fauna, durante milênios têm sido
utilizados pelos Curandeiros em suas curas e conhecimentos
terapêuticos. A medicina nativa é muito rica, porém foi muito
esquecida devido ao rápido avanço do pensamento racional. Assim se
esqueceram dos usos curativos de inumeráveis plantas porque através
dos séculos só foram utilizadas dentro de herméticos contextos
mágico-religiosos. Já, há algum tempo, existe um trabalho de
rigoroso resgate dos conhecimentos terapêuticos das plantas de uso
tradicional no país. Numerosas sociedades científicas têm uma
atitude de profundo respeito à medicina nativa, porém na sua busca
pelos conhecimentos nativos, eles esquecem de colocar em suas
prioridades o respeito ao sistema de crenças e valores do
curandeirismo. Profissionais de saúde visitam aldeias e comunidades
para dialogar com os Curandeiros respeitados pelo povo, as parteiras
e erveiros com a finalidade de troca de conhecimentos. Alguns
institutos têm o objetivo de articular os conhecimentos eficazes das
medicinas nativa e moderna para o melhoramento da qualidade da saúde
da população. Muitas organizações estão desenvolvendo estudos com
plantas medicinais que são utilizadas na medicina nativa, e
verificando os meios legais para proteger estas espécimes. Isso se
faz necessário, pois ao se conheceram a qualidades curativas de
determinadas plantas, se inicia uma irracional exportação das
mesmas, culminando num ataque ao meio-ambiente e às comunidades
indígenas.
Quase todo centro popular do país tem vendedores de ervas que
atendem qualquer enfermidade concebível, desde uma gripe, diarréias
e disfunções digestivas, feridas menores, dor de cabeça e problemas
de pele, até anemia, impotência sexual, problemas no fígado, de
sangue, reumatismo, cálculos, taquicardia, tuberculoses, obesidade,
asma, depressão e “melancolia amorosa”. Para tal se vendem, em
pacotes e a preços razoáveis, inumeráveis ervas e plantas como
erva-pombinho, quebra-pedra, pólen, unha de gato, capim-santo,
boldo, sálvia, etc. A venda de ervas é a ponta do iceberg do
fenômeno da medicina nativa no meio urbano.
Não obstante, durante os últimos anos há proliferado a existência de
charlatães que utilizam a medicina nativa como meio de vida mediante
o embuste e a mentira. Esses negócios de supostos Xamãs e
Curandeiros de nomes estrambólicos que fazem das suas a expensas o
desespero e ignorância de milhares de pessoas, se encontram em
locais ou escritórios, em avenidas no centro das cidades e sua
“arte” é uma combinação de leitura de cartas, venda de estranhos
amuletos, de suposta “eficácia mágica”. A esperteza e estupidez
desses impostores se contrapõem ao ofício dos autênticos Curandeiros
que, na maioria das vezes, caladamente e quase sem interesse
monetário, dedicam suas vidas e conhecimentos a aliviar os
sofrimentos e curar quase todo tipo de enfermidades mediante ao
ministro de ervas medicinais e estranhos rituais mágico-religiosos
de antiquíssima origem. Devemos lembrar que um Curandeiro é um
verdadeiro mestre e depositário de técnicas e conhecimentos
milenares transmitidos de geração em geração. Ele tem dignidade,
sabedoria e compaixão.
Jaguar Dourado
Fonte:
www.terramistica.com.br