Tantra Tradicional e Neotantrismo
Contemporâneo
Definindo
o Tantrismo
Tantra, ou tantrismo, é o amplo termo pelo qual os estudantes
ocidentais da espiritualidade da índia designam um tipo particular
de ensinamentos contidos no hinduísmo e no budismo. Esses
ensinamentos não podem ser resumidos, porque o tantrismo abrange uma
variedade muito ampla de crenças e práticas. No entanto, para darmos
uma descrição simplificada, podemos dizer que a maior parte das
escolas de tantrismo apresenta as seguintes características:
1.
iniciação e discipulado espiritual com um adepto qualificado (guru);
2.
a convicção de que a mente e a matéria são manifestações de uma
Realidade espiritual mais elevada, que é nossa própria natureza
onipresente;
3.
a convicção de que a Realidade espiritual (nirvãna) não é diferente
da esfera empírica da existência (samsãra), mas inerente a ela;
4.
a convicção de que é possível atingir um estado permanente de
iluminação mantendo-se ainda no estado corporificado;
5.
a meta de alcançar a libertação/iluminação através do despertar do
poder espiritual - chamado kundalini sãkti - que permanece latente
no corpo-mente humano;
6.
a convicção de que nascemos muitas vezes e que este ciclo é
interrompido somente no momento da iluminação, e de que a sucessão
de renascimentos é determinada pela qualidade moral de nossas vidas
através da ação do karma;
7.
a certeza de que estamos vivendo no presente a Era Escura (kali
yuga) e que, conseqüentemente, deveríamos valer-nos de todas as
ajudas possíveis no caminho espiritual, incluindo-se práticas que
são consideradas degradadas pela moral convencional;
8.
a confiança na eficiência mágica dos rituais, baseado na noção
metafísica de que o microcosmos (i.e., o corpo humano), é um fiel
reflexo do macrocosmos (i.e., o Universo);
9.
a consciência de que a iluminação espiritual é acompanhada de, ou
permite acessar, um amplo leque de poderes psíquicos, e um certo
interesse na exploração desses poderes, tanto para propósitos
espirituais como materiais;
10.
a compreensão de que a energia sexual é um importante reservatório
de energia que deve ser usado sabiamente para desencadear o processo
espiritual, ao invés de bloqueá-lo pela descarga orgástica;
11.
a ênfase na experiência de primeira mão, e na pura experimentação,
ao invés da confiança no conhecimento deduzido.
O
tantrismo, então, é uma tradição esotérica que consta de disciplinas
arcanas. Isto significa que seus ensinamentos são secretos, ou
"ocultos", e não podem, ou ao menos não deveriam, ser divulgados aos
não iniciados. De fato, tradicionalmente, exigia-se dos iniciados
tântricos um juramento de manter o segredo. Nesse sentido, no
Kula-Arnava-Tantra (2.6), uma obra bem famosa de sânscrito medieval
sobre tantrismo, encontramos o seguinte verso:
´´ Deves
manter este segredo e não compartilhá-lo com ninguém, a menos que
seja um discípulo; do contrário, provocará sua perdição.´´
Estas palavras foram pronunciadas pelo
deus Shiva, que aparece como o autor divino deste e de muitos outros
Tantras. Elas foram dirigidas à sua esposa celestial, Devi, a Deusa.
O fato de o próprio Shiva solicitar tanto zelo à Deusa em relação
aos ensinamentos tântricos tinha como objetivo imbuir nos estudantes
a suprema importância deste segredo.
Enquanto esta atitude deu lugar, por momentos, a um elitismo
esnobe em certos círculos tântricos, ela é essencialmente sensata.
Sem uma preparação adequada nos planos moral, emocional, mental e
espiritual, o tantrismo pode tornar-se uma armadilha
mortal. Seus métodos são potentes e podem prejudicar seriamente
àqueles que não estiverem adequadamente preparados. Muitos dos
ensinamentos tântricos nunca foram registrados por escrito. Eles
eram transmitidos oralmente - do guru ao discípulo devidamente
qualificado. Às vezes, eles eram sussurrados no ouvido do estudante,
sob a exigência do mais absoluto secreto. De acordo com certas
escrituras, até mesmo os deuses deveriam ser excluídos do
conhecimento secreto do tantrismo.
O neotantrismo e a popularização dos ensinamentos esotéricos
A atitude reservada do tantrismo tradicional mostra-se em
franco contraste com o neotantrismo de nosso tempo, que tende a ser
indiscriminadamente democrático. Por exemplo, os autores de um livro
muito popular sobre Yoga tântrico começam suas instruções sobre como
iniciar um grupo tântrico, afirmando que a crença na necessidade dos
gurus "tornou-se obsoleta séculos atrás com a invenção da imprensa".
Eles anunciam seu livro como o "guru perfeito". Nós poderíamos muito
bem questionar, como eu já fiz em outra publicação, a função e a
adequação dos gurus autocráticos para a nossa era. Não obstante, não
deveríamos subestimar a autoridade espiritual tão levianamente,
substituindo-a por livros. Pelo contrário, faríamos bem em levar em
consideração a seguinte observação, feita no Kula-Arnava-Tantra
(1.96-97):
´´Ignorante
de sua Verdade interior, o tolo vagueia nas escrituras, como o
pastor que busca o cordeiro no riacho, quando ele está em seus
braços.
O conhecimento verbal é inútil para superar as ilusões deste
mundo, assim como as trevas não deixam de existir se meramente se
falar sobre uma lâmpada.´´
O neotantrismo, atualmente uma
característica visível do movimento da Nova Era, é uma popularização
dos ensinamentos tântricos. Em muitos casos, os professores desta
nova onda de tantrismo parecem não ter recebido os benefícios de uma
iniciação formal por um guru tântrico competente; nem tem, falando a
grosso modo, estudado as escrituras tântricas com suficiente
profundidade como para terem uma compreensão clara da extraordinária
herança que pretendem representar. O perigo da distorção e da
vulgarização torna-se evidente quando examinamos a literatura
popular.
Porém, este perigo não está confinado aos textos sobre
tantrismo. Ele é, aliás, onipresente na cultura editorial ocidental.
A literatura disponível sobre budismo, taoísmo e outras formas de
espiritualidade criou uma inundação de conhecimento sobre outras
culturas e religiões. Certamente, isto aumentou o nível de
tolerância ideológica entre as massas educadas. Não obstante, a
disseminação indiscriminada de conhecimento que um dia foi sagrado e
muito difícil de se obter tem feito surgir, igualmente, a soberba
presunção de que sabemos tudo; de que estamos mais avançados em
nossa busca espiritual do que realmente estamos; de que não
precisamos nos submeter às dificuldades e agruras da transformação
espiritual. O falecido Chögyam Trungpa disse muito bem:
Nossas
vastas coleções de conhecimento e experiência são apenas parte das
manifestações do ego, parte das pomposas qualidades do ego.
Apresentamos elas ao mundo e, ao fazermos isso, reafirmamos para nós
mesmos que existimos, são e salvos, como gente "espiritual". Porém,
tudo o que fizemos foi criar uma loja. Uma loja de antiguidades.
Contrariamente ao que afirma a imaginação
popular, não há atalhos para a realização espiritual. Felicidade e
liberdade somente podem ser ganhas através da conquistada do ser.
Nem drogas, nem badulaques eletrônicos, nem sofisticação sexual
poderão realizar a nobre tarefa da auto-transcendência em nosso
nome.
Devido a que o tantrismo popularizado é omisso na questão
ego-personalidade, corre o risco de degenerar em magia negra. É
preciso dizer que o tantrismo fundamenta-se numa atitude mágica em
relação ao mundo. Suas práticas operam na base da lei da
similaridade e da correspondência: "Assim como é acima, assim é
embaixo. - Assim como é dentro, assim é fora". No entanto, a magia
negra é uma exploração impiedosa das conexões mágicas entre as
coisas, usada para fins egoístas.
Enquanto o tantrismo genuíno busca fornecer meios para a
transcendência do ser, ou do ego-personalidade, a magia negra é
sempre uma tentativa de gratificar desejos egóicos. Freqüentemente
envolve exercer poder sobre os demais e destruir suas esperanças de
alcançar a felicidade. O mago negro, tântrico ou o que for, tem como
único objetivo sua própria gratificação. Ninguém mais lhe interessa.
É claro que, como é de se esperar, falha em realizar e perceber a
grande felicidade e a liberdade prometidas nas escrituras tântricas.
A história do tantrismo na Índia e nos países do Himalaia teve
igualmente seu quinhão de fracasso moral. 1 erudito indiano
Brajamadhava Bhattacharya, que foi iniciado no tantrismo da mão
esquerda quando era jovem, observou:
´´De drogaditos
a alcoólatras, de pervertidos a maníacos, todos abrem seus clubes
sob o indefinido guarda-chuvas do Yoga e do Tantra. O Tantra
tornou-se uma evasão fácil para os degenerados. Porém, o Tantra real
compromete-se, de corpo e alma, com a subjugação de todas as emoções
sensuais à causa subjetiva de descobrir a verdadeira identidade do
Ser.´´
Em
seu país natal, os ensinamentos tântricos caíram em descrédito
precisamente por causa do abuso indiscriminado. A vida espiritual
genuína tende a florescer em secreto, mas os perdidos têm sempre
propagandeado suas questionáveis realizações e formidável egotismo
no meio do mercado.
O
orgasmo e a busca da felicidade
O perigo do egoísmo nas formas de tantrismo popularizado é mais
visível na atitude que alguns neotântricos ostentam em relação ao
orgasmo. Contrariamente à opinião do finado Swami Agehananda Bharati
(um professor estadunidense de antropologia nascido na Áustria),
tanto o tantrismo budista como o hindu geralmente recomendam aos
praticantes de sexo masculino a parada do sêmen junto com a
respiração e a mente.
Em outras palavras, o orgasmo não faz parte do repertório
tântrico. Os Tantras do budismo afirmam que a "mente iluminada"
(bodhi-chitta) não deve descarregar-se. Isso significa que o sêmen é
equiparado ao impulso em direção à iluminação. O orgasmo não conduz
à felicidade, mas ao mero prazer sensorial. O praticante sério deve
evitar o orgasmo.
Várias técnicas são recomendadas para se fazer isto, a maioria
para homens, já que estes tendem a chegar ao orgasmo mais
facilmente. À parte da grande autodisciplina e o controle sobre as
respostas orgânicas, os homens recebem a recomendação de aplicarem
pressão na área do períneo para evitarem a ejaculação. No entanto,
esta técnica pode tornar-se um perigo para a saúde se tornar um
hábito. É muito melhor evitar que a excitação sexual atinja o ponto
em que a ejaculação é iminente. Além do mais, uma vez que os
espasmos ejaculatórios começam, o sêmen é descarregado na uretra, e
o truque perineal somente força o sêmen a ir em direção à bexiga.
Alguns praticantes, buscando o melhor de ambos os mundos,
aprendem a controlar suas funções genitais até o ponto de poderem
reabsorver o sêmen novamente pelo pênis. Esta curiosa técnica yogue
é chamada vajroli mudrã, e está descrita, por exemplo, na Hatha Yoga
Pradipika (3.83ff.), um texto do século XIV sobre Hatha Yoga.
O mérito deste exercício foge à minha compreensão, porque o
sistema nervoso já foi acionado e a tensão criativa que poderia ter
servido como uma ponte para o êxtase já se perdeu. O objetivo de
evitar o orgasmo é acumular a energia sutil ou nervosa, chamada
ojas, que se dispersa no momento em que os nervos se distendem
durante a ejaculação.
Segundo Bhattacharya, uma pessoa acumula três unidades de ojas
durante uma vida. No entanto, para alcançar a libertação espiritual,
requerem-se cem unidades, o que significa que esta acumulação deve
estender-se durante várias encarnações. Bhattacharya não fornece uma
citação das escrituras para apoiar seu ponto de vista: ele pode
muito bem ter sido baseado na tradição oral. Outras escolas
sustentam que é possível alcançar-se a mais alta meta evolutiva numa
única encarnação. Noutras palavras, é possível gerar suficiente ojas
através da abstinência sexual e a prática meditativa como para
estabelecer uma base energética para a iluminação final, no
transcurso desta vida presente.
Em todo caso, a técnica vajroli representa um desafortunado mal
entendido que permeia o mecanismo energético da sexualidade sagrada.
A ênfase na maior parte das escolas tradicionais de tantrismo dá-se
no despertar do potencial erótico do corpo sem chegar perto do
orgasmo, que meramente dispersa as energias psíquica e somática.
No neotantrismo, uma atitude muito diferente prevalece. Não
somente os parceiros tântricos são instruídos para excitar um ao
outro até chegarem perto do orgasmo, mas espera-se deles que
alcancem o orgasmo uma ou várias vezes a cada sessão. Ou eles são
encorajados a buscar alívio no orgasmo depois de terem se estimulado
mutuamente com o propósito de provocar um estado alterado de
consciência que, em minha opinião, contradiz o propósito do ritual
precedente.
O ritual em si mesmo torna-se uma caçada de experiências
prazerosas. Também tende a haver indelicadeza, com os parceiros
provocando e excitando um ao outro. Isto nada tem a ver com os jogos
de amor do casal divino; pelo contrário, apenas nos fecha a dimensão
respeitosa e sagrada do mistério do eros.
Sexo
oceânico e transcendência extática
No melhor dos casos, a prática neotântrica popularizada conduz
àquilo que o psiquiatra Stanislav Grof chamou "sexo oceânico". Grof
explica:
No
sexo oceânico, o modelo básico para a interação sexual com outro
organismo não se processa através de uma descarga libertadora e uma
distensão após um período de tensão e esforço extenuante, mas por um
fluxo brincalhão mutuamente alimentador e um intercâmbio de energias
que lembra uma dança. O objetivo é experienciar a perda dos próprios
limites, um sentimento de fusão com o parceiro em um estado de feliz
unidade. A união genital e a descarga orgástica, embora
poderosamente experienciadas, são aqui consideradas secundárias, em
função da meta final, que é alcançar o estado transcendental da
união dos princípios masculino e feminino. (...) Algumas das pessoas
que alcançaram esta forma de sexualidade, quando perguntadas sobre
qual a função o orgasmo genital tem nelas, responderam que serve ao
propósito de "tirar o ruído biológico de um sistema espiritual".
A experiência sexual oceânica é
certamente superior ao breve ímpeto das sensações genitais no sexo
convencional. Não obstante, não deve ser confundida com a
sexualidade tântrica. Grof corretamente diferencia o sexo oceânico
da abordagem tântrica, onde a sexualidade e meramente um veículo
para a realização espiritual mais elevada.
O ritual sexual tântrico conhecido como "irmanação" (maithuna)
é a ocasião sagrada onde se celebra a transcendência das
experiências.
A condição extática de felicidade não é, de forma alguma, uma
experiência, pois quem está tendo a experiência torna-se uno com
ela. No estado de êxtase, a divisão entre sujeito e objeto é deixada
para trás, juntamente com a mente conceitual e a identidade do ego,
que poderiam deleitar-se nessa felicidade.
Parece que, nos círculos neotântricos, a felicidade de Ser é
confundida, demasiado freqüentemente, com um estado de elevado
prazer sensorial, com ou sem envolvimento do orgasmo genital. Embora
o prazer tenha seu lugar, é uma cândida ilusão pensar que ele possa
aliviar nosso sentimento fundamental de separação do cosmo ou nos
ajudar a superar o medo básico da morte ou, ainda, nos dar
realização espiritual permanente.
O prazer, assim como a dor, pertence à esfera do sistema
nervoso. A felicidade pertence a uma ordem de existência
completamente diferente. Não é um sentimento ou uma sensação, mas a
condição que prevalece quando todos os sentimentos e sensações, bem
como todos os pensamentos, são eclipsados pela percepção do Ser
puro. A felicidade extática e verdadeira pode registrar-se no corpo,
porém, o corpo - do jeito que o experienciamos habitualmente - não é
sua fonte. Na condição extática de identificação com o Ser, o corpo
é revelado como o próprio universo. A moldura física percebe-se, não
como sólida, mas como um vasto oceano de energia no qual todos os
corpos estão interconectados. Portanto, não se pode afirmar que essa
felicidade tenha alguma localização ou alguma causa.
Orgasmos genitais ou de corpo inteiro são fenômenos
psicossomáticos, não manifestações espirituais. A felicidade é o
"orgasmo" perene do Deus e a Deusa em união divina, que transcende
todos os conceitos. É desfrute indescritível, e até mesmo falar ou
escrever sobre essa felicidade, mesmo de maneira metafórica, conduz
a uma distorção da verdade. Não obstante, a linguagem pode ser útil
porque a felicidade de Ser é nossa condição primal e, portanto,
podemos ter um vislumbre daquilo que está além das palavras e
imagens.
A princípio, o tantrismo não é nem orgástico nem hedonístico.
Porém, se não devemos confundir o tantrismo com hedonismo, tampouco
devemos confundi-lo com ascetismo. Alan Watts nos forneceu a
seguinte reflexão sobre o modus operandi tântrico:
O
asceta e o sensualista, da mesma maneira, confundem a natureza e "o
corpo" com o mundo abstrato de entidades separadas. Identificando a
si próprios com o indivíduo isolado, sentem-se interiormente
incompletos. O sensualista tenta compensar essa insuficiência
extraindo prazer ou plenitude do mundo, que parece estar separado se
si mesmo, como se algo estivesse faltando. O asceta, com uma atitude
de "uvas ácidas", faz da carência uma virtude. Ambos falham em
distinguir entre o prazer e a busca do prazer, entre o apetite ou o
desejo e a exploração do desejo, e em ver que o prazer assim obtido
não é prazer. Porque o prazer é uma graça que não obedece aos
comandos da vontade. Noutras palavras, trata-se de mudar a
perspectiva da relação entre o homem e seu mundo. Como a intuição
mística, deve sempre surgir espontaneamente, o que significa que
essa relação pode ser experienciada plenamente apenas com a mente e
os sentidos abertos, e não tentar provocar a experiência à força.
O
neotantrismo e a armadilha do ego
O neotantrismo está crivado com a "falsa consciência" de meios
e metas. O ritual sexual, como as outras técnicas tântricas, é usado
como um meio para realizar o fim de atingir as experiências ou os
estados "elevados". Porém, é precisamente esse pragmatismo o que
condena as tentativas neotântricas ao fracasso. Meios e fins
pressupõem a presença do ego que, teoricamente, deveríamos
transcender. Em seu livro The Breath of God, ("A Respiração de
Deus"), Swami Chetanananda menciona o caso de um homem que,
excitadamente, contou-lhe como, durante o ato sexual, tinha sentido
"uma tremenda descarga de energia" em sua cabeça e que, desde aquele
momento, estava tentando reviver a experiência fazendo sexo
diariamente. Humoristicamente, o Swami observou:
No
negócio da religião como um todo, vezes e mais vezes, você irá achar
esta tendência a encontrar todo mundo buscando algo que não existe
ou que, mesmo existindo, significa muito pouco. Você percebe o
problema implícito nesta idéia? É um negócio digno de Tom Sawyer e
eu acho que alguém vai acabar com um monte de cercas pintadas com
cal.
Os
praticantes sábios percebem que a iluminação, ou a realização do
Ser, não pode forçar-se. No caminho espiritual, qualquer esforço
egoístico está condenado ao fracasso, porque conduz ao inchaço do
ego ao invés de à auto-transcendência. A idéia de que podemos forçar
a iluminação deveria ser a primeira a ser descartada;
freqüentemente, é a última. Como disse Ananda Coomaraswamy em seu
belo e agora clássico ensaio sobre o ideal hindu-budista da
espontaneidade (sahaja) "Tudo o que for melhor para nós vem
naturalmente às nossas mãos - porém, se tentarmos batalhar para
consegui-lo, perpetuamente afastar-se-á de nós".
Uma
avaliação crítica do neotantrismo
Apontando as contradições e perigos do neotantrismo, não estou
querendo descartar o movimento como um todo. Sem dúvida, ele tem-se
tornado um importante fator na espiritualidade emergente nos dias de
hoje, que vê o corpo de maneira positiva. Fornece significação e
esperança para aqueles que cresceram sob a visão da culpabilidade
puritana e a sexualidade convencional. Igualmente, oferece um certo
aterramento, ou senso grupal, para aqueles que, de outra forma,
ficariam à deriva, cultural ou socialmente. Assim, os candidatos a
ingressarem num círculo tântrico ouvem as seguintes promessas: "você
nunca mais vai sentir-se só", "tenha amigos amorosos e apoiadores",
"tenha um propósito na vida", "alcance absoluta igualdade com o sexo
oposto".
Para a maioria das pessoas, estes são, claro, ideais
desejáveis. No entanto, têm pouco a ver com a vida espiritual, que é
sobre aprender a viver na plenitude do Divino de maneira que não
haja medo de estar só, ou de não ter amigos, ou de não ter um
propósito de vida determinado, ou de não sentir igualdade nas
diferentes esferas da vida. Um ambiente solidário e apoiador é
importante, especialmente para os iniciantes no caminho espiritual,
mas também há o perigo de que esse ambiente se torne uma realidade
falsificada. Há, claramente, grande benefício espiritual a ser
obtido da vida fora do claustro ou do grupo protetor, onde devemos
confrontar - e aprender a encontrar o Divino em - o mundo real.
O sucesso da mais importante contribuição do neotantrismo no
processo de reavaliar nosso corpo humano sexuado como base da vida
espiritual dependerá de dois fatores que estão interconectados:
primeiro, que seus praticantes superem sua mentalidade consumista
ocidental, com as metas de gratificação instantânea, truques e
narcisismo; e, segundo, que realmente ressuscitem dentro de cada um,
e entre eles, um sentido profundo do sagrado, do maravilhoso
Mistério que não aceita ser reduzido a fórmulas capciosas, sistemas
de crenças acabadas ou rituais elegantes. O caminho é o Mistério em
si mesmo.
Georg
Feuerstein dirige o "Yoga Traditional Studies": www.yrec.info
Tradução de Pedro Kupfer, pedro@yoga.pro.br
Fonte: Humaniversidade.com.br